Saturday, April 29, 2006

Queria chover.

Não é todo dia que chove. Ele gostaria que fosse o contrário. Quando o céu acinzenta é bom. Seus pensamentos fluem melhor e ele sai de casa. Sem guarda-chuva. A água fria que pena em cair do céu é agradavelmente desperdiçada em sua seca face. Claro que fechar os olhos e levantar a cabeça sentindo a chuva é agradável para qualquer um. Mas para ele era diferente. Era especial. Nostálgico. Talvez fosse tão profundo em encharcar seus poros com a chuva que lembraria até de suas vidas passadas. E nem tinha medo de gripar. Gostava de se molhar com chuva.
Era começo de inverno e o que mais se ouvia era a mesma estupidez. “O fim dos tempos se aproxima e o clima está cada vez mais louco!” Realmente estava sendo um inverno de poucas chuvas naquela cidade. Mas para ele chovia todos os dias. Com aquela agradável brisa fria e as grossas gotas de água que pousavam levemente sobre seu corpo. E quando todos abriam seus guarda-chuvas pretos, ele deixava-se molhar por aquela ausência maravilhosa de Sol.
Queria aproveitar cada minuto de sua chuva, porque sabia que antes do inverno partir ela acabaria. E a luz ocuparia todo o espaço e o ofuscaria. No asfalto quente da rua não ficaria a salvo e em casa morreria de calor. Todos ficariam alegres. Ele não. Sua alma faria de tudo para alegrá-lo. Tentaria até fazê-lo chover litros de água. Como ele tanto gostaria.

Friday, April 21, 2006

Nariz sangrento



O meu olfato já não é tão aguçado. E para falar a verdade nunca foi. É essa falta de um bom faro que me impede de sentir o fedor de muitas coisas. Cheiro de maldade. Aquele cheiro de sangue misturado com terra. Era esse cheiro que deveria eu sentir quando alguém o possuindo se aproximasse. Mas maldito seja meu nariz que sangra toda semana. A bondade tem esse cheiro. Aroma bom de sangue. Ferrugem que lembra coração puro (como se tivesse existido realmente um). Grande problema que sinto ao tentar detectar o fedor de pessoas hostis. Só percebo bondade em todos que estão ao meu redor. Falta a terra. Pelo que sei a maldade não tem cheiro de terra molhada (que na verdade lembra serenidade), mas fede como a mesma terra onde ciprestes crescem. Com aquele gás metano. E o sangue. E sangue é só o que sinto em minhas narinas. Lamento dois sentimentos tão distintos serem tão fáceis de se confundir por conterem um ingrediente em comum. Não se trata de ingenuidade. É meu olfato deficiente que me deixa louco. Vai ver é sinal que devo começar a procurar usar outro sentido. Visão é uma boa alternativa. Deve ser mais fácil enxergar o que as pessoas pensam observando seus olhares. A maldade pode estar estampada facilmente nas retinas.
Maldita miopia.

Tuesday, April 18, 2006

Clichê humano

...e obrigado por ter voltado.

Acordando e abrindo os olhos, para não enxergar nada a princípio. Levando tapas nas pequenas nádegas. Pulmões abertos. Aspirando O2 e inspirando CO2. Choro alto. O primeiro sinal de existência. Certidão. Medo. Salvação nos braços da mãe. Sala de aula e risos. Vergonha e dedos apontando, e perfurando como flechas, a criança envergonhada. Descobertas, livros a ler e cálculos a fazer. Erros cometidos. Não os repita! Erros repetidos. Castigo e auto martírio. Descobertas e mudanças. Muito mais erros. Primeiro beijo à tarde e coração acelerado à noite. Muitas músicas, quantidade suficiente de irmãos e poucos amigos. Mente fértil. Mudando constantemente todo fim de semana. Rock’n Roll! Erros se repetem novamente. Sem castigos. Cem castigos. Apelidos nada carinhosos. Vítimas sem culpados. Aprendizado: a cada minuto nascem dez inocentes e noventa culpados no mundo. Mudança de lugar, de hábitos, aparência, amigos, vida. Não mais cristão, porém mais forte. Menino que vira homem, sendo homem-menino. Que abraça o caos e não o larga. Vinho e álcool etílico no mesmo copo. Pouca música, quantidade suficiente de amigos e muitos irmãos (sendo o filho mais novo). Aspira CO2 e inspira CO2. Muito mais erros cometidos. Nenhuma penitência. Liberdade temporária. Mais leituras e menos cálculos. “Rebeldia e maus hábitos”. Mais fotos e mais preto e branco (mais preto que branco). Mais risos e goles, e tudo girando, girando e girando. Lamentando nas segundas-feiras. Grades nas janelas de casa e a espera do acaso (nenhuma expectativa de futuro). Estuda e se forma. “Vira gente”. Esperando ansiosamente a segunda-feira. Sem dinheiro para pagar a gasolina e o telefone toca: “Amor, estou grávida!”. Choros e enxovais para contentar o sofrimento de muitas contas para pagar. Espera e hospital. Hospital e espera. Dor, métodos de cesariana e “Parabéns, é uma menina!” Risos. Papai parece ser um bom nome. Mais trabalho. Mais filhos. Envelhecendo. Último filho. Parto normal e “Parabéns, é um menino!”.

Por favor, volte ao começo...

Friday, April 14, 2006

Fernando & Luís.



Era como se impulsionasse novamente seus instintos de fazer o que não devia ser feito. Era errado gostar, e sabia que os governantes lutavam para que ele não controlasse os desejos encravados em sua mente. Uma falta de discernimento em suas emoções o ajudara a compreender o que ele realmente queria.
Queria amar alguém que não sabia se podia amar pelo que ele era. O moço apertou forte os próprios cabelos no escuro, encolhido em seu sofá, e sussurrou baixinho aquela pergunta que perturbava-o ao ver suas irmãs. "Por que eu não nasci diferente como elas?" Sem saber que era diferente dos demais homens que o rodeavam. Precisava era do carinho que nunca lhe fora proporcionado. Precisava de um cafuné dele.
E se dissesse que amava quem não podia ser amado, seria uma tragédia. E esse sofrimento em sua alma continuava ao sentir que seu amado era normal. Normal. Uma palavra contextualizada pela sociedade preconceituosa para acabar com todos aqueles que ousassem inovar algo tão banalizado como o amor. Não era fácil esconder sentimentos que outros não sentiam. O que precisava fazer era liberá-los.
“Levanta da cama, homem, que quero provar que tu és o que quiseres ser!” Sua alma gritava para que ele não desistisse de seu amor. E ele desistiu e não se levantou daquela escuridão. Não queria ser conhecido como o homem que amava outro homem.
Só precisava de um tempo para despertar daquele pensamento contínuo de tentar ser o que outros eram. Ou pelo menos fingir. “Arranje uma namorada e esqueça! É impossível que ele concorde com o fato de ser amado pelo que você é!” disse sua mente. Opositora à alma.
“Não vou arranjar namorada nenhuma! Vou lá e acabar com minha agonia! Luís, eu sou apaixonado por você.” “Como assim, Fernando?” “É isso mesmo que você ouviu! Eu te amo! E sei que você não pode corresponder esse amor!” “É. Realmente não posso.” E continuava a imaginar toda aquela frustrante declaração que então iria fazer assim que Luís atendesse a campainha. E certamente atendeu. E não havia ninguém na porta. Tinha sim um covarde chamado Fernando que acabava de fugir pela escada do prédio. “É melhor deixar como está. Se me declarar para ele, tenho o risco de ser odiado. Melhor deixar o odiado como adiado. E não haverá dor em ambas as partes. Só na minha.”

Saturday, April 08, 2006

Respirar, deglutir, pensar.



“Precisei de uma vida confortavelmente premeditada para continuar sabendo que eu posso respirar, deglutir, pensar. Não é fácil medir conseqüências antes de serem causadas pela minha excessiva obstinação. Acho que minha vida foi tida como um amor encharcado de palavras bonitas e poucas carícias. Porque eu sei que ele me ama. O problema é quando descobrir que nem tudo funciona como deveria.
Uma garantia que serviria para anestesiar a insegurança de viver era a promessa de continuar fazendo as três ações anteriores (que por sinal foi o que mais fiz até então).
Tenho medo de ser o que não pareço. Desaparecer da vida dele e ser trocada por qualquer uma que tenha feito tudo aquilo melhor do que eu. Já que é decepcionante descobrir que existe um computador no lugar do meu cérebro e que nada valeu à pena se meu corpo não tem alma. Mas tem. E é agressivamente deixada de lado.
Na verdade fui considerada aquela máquina de repetição que trabalha em uma firma pedante de patrões sem escrúpulos. Agi como uma de uma série produzida para trabalhar sem ter tempo de amar alguém. Ao próximo. Mas amei. Amo.
Ele saiu depois que não tive tempo para viver minha vida pessoal. Eu ganhava bem. E gastava mal. Cigarro a respirar, almoço a deglutir, contas a pensar. Nestes gestos a máquina de repetição volta ao labor, incrédula do que foi premeditado desde então.
Agora sim agia como uma humana. Respirava, acordava, deglutia, pensava, pegava, andava, banhava, dirigia, entrava, trabalhava, cansava, respirava, deglutia, pensava, dormia, ouvia que seria demitida se continuasse assim!
Meus hábitos morreram ineptos de tentar resistir àquelas imolações que meus superiores tanto realizavam. E eu como uma comandada sofria ameaças de perder o que conquistei por agir naturalmente como um ser humano. Também sinto sono! E amo!
Levantei-me de meu acento e fiquei cara a cara com aquele miserável. Não iria mais ser onipotente se eu reagisse. Antes que o senhor me ameace de demissão mais uma vez, digo que não precisa ter esse trabalho! Eu me demito! Peguei tudo o que pude carregar nos braços e saí corredor afora daquela empresa. Ouvi berros sobre o quanto eu era importante para a empresa e o que eu estava fazendo comigo mesmo.
Estou apenas fazendo o que foi de mais sensato em toda a minha vida! Indo atrás de ser feliz! Corri, abri, liguei, dirigi, respirei, acelerei, cheguei, degluti, pensei e liguei para ele. Disse o quanto precisava de seu amor e que tinha acabado de me demitir para não abandona-lo mais. Dane-se o que os outros irão pensar! Eu não sou frágil, mas posso fingir ser. Tenho liberdade, mas posso fingir não ter. E todo aquele feminismo sobre a independência de um homem foi por água a baixo.
Na verdade me sinto realizada com a displicência que minha alma ( que não está alojada em uma máquina, mas sim em uma humana ) teve ao tentar enfrentar um emprego tão ruim. Estudei para ser o que era. Mas se optasse para estudar algo mais, estudaria meu amor. Porque ele se sente o homem que vai me proteger agora. E eu finjo ser indefesa para que ele pense isso.
Agora respiro, degluto, penso e amo. E não só amo.”

Wednesday, April 05, 2006

Conversa à três.

É aquele que está a te envergonhar novamente com suas faltas graves? Se não gosta então por que anda com esse tipo de gente? Sabe que eu não sei. Ele faz com que eu me sinta bem. Todavia fica aí chorando. Não quero ver você sofrer! Eu não estou sofrendo. Tudo é uma questão de consenso. E não acho que sinto dor com a convivência nossa. Você é quem sabe. Eu quis somente ajudar. No dia em que querer uma ajuda tua lhe aviso. Você não faz questão de minha companhia? NÃO!
Não tenho culpa se o fiz chorar novamente! Pensa que eu também não sofro com o que ele me fala? É, mas eu conversei com ele agora a pouco e ele não quis minha companhia para ajudá-lo. É que ele é uma pessoa muito temperamental. Não é assim tão fácil! Gostaria que fosse. Todos nós, meu caro, todos nós. Por que você não vai até lá e abre um diálogo civilizado com a pobre alma? Acho que ele ouviria melhor sua palavra, já que foi você que brigou com ele, e não eu.
Olha. Eu não sei como começar. Vim aqui para pedir desculpas. Estou muito arrependido do que fiz. Tarde demais para falar, não acha? Agora que já sei que você não é capaz de assumir uma amizade pode ir embora! Não faça isso comigo. Eu tive uma conversa com nosso amigo e ele me disse que você não quis a companhia dele. Nem dele nem a sua! Pelo amor de Deus vá embora e deixe-me só!
Não adianta. O que fiz com ele foi muito grave. Sinto-me um impotente. Queria poder acabar com essa briga de vocês. Não é possível. Será assim para sempre. Eu matei o pai dele. Isso é imperdoável. Espera aí! Você matou o pai o pai de seu melhor amigo?! Matei. E pior. Não socorri. Foi tudo um acidente. Eu o atropelei.
Olha, está certo que seu pai morreu, mas tem que ver que não foi intencional. Eu sei que não foi! O problema é que ainda adoro meu amigo como um irmão. Então por que está com tanto ódio dele? Não é ódio isso que sinto. É uma defesa. Eu nunca mais vou poder olhá-lo sem lembrar que ele matou meu pai. Por isso quero afastá-lo de minha vida. Mesmo que doa. E via doer. Sei disso porque você não é o único que está sofrendo. Tenho medo de ele deixar de viver por ter matado ele.
Deixar de viver eu até penso. O problema é que se eu não tive coragem de socorrer uma pessoa que tenho grande consideração, imagine se vou ter força de vontade de acabar com minha vida! Vou ter que conviver com esse castigo para o resto da vida. Sua atitude pode ser coerente, mas lembre-se que o perdão de uma amizade é incondicional... À não ser que você mate o pai de seu melhor amigo!
Como ele matou seu pai? Não sei e nem quero saber. Se for para viver com isso, prefiro esquecer.
Como você matou o pai dele? Eu estava dirigindo em uma neblina. Não vi ninguém. Então um vulto apareceu na minha frente e não sobrou tempo para desviar. E como soube que era o pai dele? Eu saí do carro. E por que não o socorreu?! Como disse. Falta de coragem. Que triste. O destino é terrível.
Ele disse que não viu seu pai na rua. Na hora do acidente havia uma neblina na estrada e ele não enxergou nada. A conveniência do destino é a principal causa de mortes de amizades e pessoas. Vou fazê-lo sufocar em mágoas para que ele pense a vida inteira no que fez.

“Eu desisto. Tentei fazer os dois voltarem a ser amigos, mas a dor que eles sentem é imensa. Vou deixá-los também. Cada um pelo seu caminho. Não ache que o amor é incondicional. Pode ser até reconhecido como uma deformidade sentimental que faz com que nossas almas se cansem rapidamente. O que a perda de um pai faz com um, faz a perda da coragem. Você é um tolo! Sua vida é ótima e você reclama quando é privado de algo. A privação que os dois amigos passam é mais que suficiente para todos verem o quão é triste uma briga nossa por um pequeno abjeto. Prometo não me enfurecer com insignificâncias. Prometa!”

Escrito por Rafael Passos sobre um acontecimento fictício. Caso todos fiquem realmente preocupados.

Saturday, April 01, 2006

Bolhas




Boicotando seu jeito de ser e desabafando às reticências de uma sabedoria forjada, ele não se imaginava circundado por tanta gente sem escrúpulos. Mas estava. Olhou para todas as direções possíveis de dar uma trégua a sua mente saindo de lá. Todos eram desagradáveis. Mas nem sempre.
Naquela noite errara em tudo. Nos sapatos de couro encomendados, na cor da gravata, na décima taça de vinho que segurava na mão. E tudo à sua volta rodopiava em demasiada velocidade. E os que já não tinham nexo ao conversar, agora grasnavam na direção de seus tímpanos como se gritassem “vá embora daqui!”.
Embaixo daquela lua pesada e cheia do jardim da casa de seu pai, tentava se manter em pé diante aquela gente que ameaçava o tempo todo presenciar um possível vexame. Era em agonia que suas narinas começavam a fazer esforço para capturar o ar que parecia estar preso à grama. E estava. Tinha cheiro. Que para ele não era bom.
Riam, comiam, bebiam e conversavam todos sem reparar na falta de ciência em qualquer tipo de assunto que discerniam em palavras de status social alto. Mas todos não passavam de analfabetos funcionais para ele. Ligeiramente (?) bêbado, estava começando a ver uma realidade não usada antes por seu ego e consciência.
Depois de sua incessante procura por uma saída, no meio daqueles convidados de mentes inóspitas e desagradáveis de se tentar adivinhar, encontrou uma salvação. Uma brecha entre um casal se servindo de canapés, pediu licença e foi ao toalete. É lá que covardes imaturos resolvem seus problemas indignos de serem exibidos em publico.
Encheu a pia de água. A principio queria afogar suas mágoas, mas agora só queria se curar do porre. Era cedo e tinha saudades da infância. Agora está tarde para sentir o que for por ela. Vida fácil dês de que nasceu. Nunca lhe faltou nada. Nem o amor de seus pais e nem brinquedos caros vindos do estrangeiro.
Após lembranças, teve vontade de desaparecer depois de recuperar sua definhada consciência. Nunca a usara antes. Mas a conseguia usar neste momento em uma situação totalmente hostil para ser usada. Estava embriagado, não conseguia respirar. E todos que eram considerados seus amigos estavam lá fora. Ninguém o seguiu. Sóbrio não notaria isso. Riam, comiam, bebiam, conversavam todos sem reparar sua ausência e sua ida ao toalete. Aqueles eram seus amigos. Não.
A primeira bolha saiu de sua narina. A festa estava ótima. Bebidas e comidas à vontade para duzentos convidados elegantes. Todos que lá estavam mereciam méritos e mais méritos de tal promiscuidade que assombrava o salão de festas, o jardim e o salão de entrada. E as comidas e bebidas deliciosas o fizeram realmente passar mal.
A lucidez daquele álcool alojado em seu cérebro era maior do que quando não bebia nenhuma droga licita. Ele parecia ter ficado entorpecido a vida inteira para não enxergar a realidade que a embriaguês tinha proporcionado naquela noite de lua pesada e cheia. Viu que tudo era fácil e conseguia o que queria. Seus pais sempre lhe ajudavam no que necessitasse e era invejado por muitos que estavam naquele jardim com cheiro da grama que prendia todo o ar da noite. E agora ele saltava mais bolhas pelas narinas. E seus olhos começavam a revirar.
O duro era enxergar entre tantas bolhas, depois de estar bêbado que, em toda a sua medíocre vida estava sempre acompanhado daquelas pessoas e era submisso a seu pai. Sempre achava justo. Ganhava tudo o que queria para simplesmente obedecer toda a ética amoral daquele velho homem. Formou-se em medicina sem ter gostado de biologia e química na escola. O pai estava feliz com a ação do filho, mas ele.
Seus pulmões agora contraiam-se rapidamente deixando assim todas as bolhas escaparem. Conseguiu ver todas as suas aflições sobre sua falta de iniciativa para conseguir liberdade de pensar por si próprio sem a intervenção do pai. Porém, não conseguia se lembrar do motivo de sua embriagues.
Um convidado entrou no toalete e olhou para o pobre rapaz com a cabeça mergulhada na pia transbordando água. Tirou-o de lá imediatamente. Estava há quase um minuto sem respirar. Engoliu água.
Deitado no chão via seu pai e alguns convidados o observando aflitos. Todos giravam rapidamente como em uma centrifugadora. Vendo todos, lembrou que resolveu ficar bêbado não por algum motivo grave, mas simplesmente por não ter conseguido o que queria. Todos viram que ele agira como uma criança mimada, o que para ele poderia ser interpretado como alívio. Enfim conseguiu expressar seus sentimentos pela primeira vez na frente de algum ser humano.
Ficou assim quando seu pai disse que ele teria que trabalhar se quisesse ganhar algo a partir daquele dia. Não gostou de saber disso antes da festa começar. Não gostou de saber que ia trabalhar em uma carreira que detestava. Não acreditava que ia ser médico. E lá, foi carregado por aqueles homens e levado para tomar banho e dormir.
Enfim sonhava com uma futura e possível liberdade. Algo que parecia com bolhas flutuando vagarosamente para cima. Sua liberdade iria ser aquilo daqui para frente. Uma bolha livre que vagava para cima, sem saber que seu destino seria padecer e estourar na superfície da água.