Aquela razão (você sabe do que eu estou falando!)
Achou aquela razão. Não daquelas onde se descobre o sentido da vida ou para onde ruma a humanidade. Era algo bem mais sutil. A pele de suas costas colada com o chão de madeira não era desconforto que antes sentia. E incomodava.
Lá deitado estava o homem que jogava tudo para o alto e conseguia que fosse ao mesmo tempo, se apegar ao que largava. E estavam largadas todas as suas obrigações debaixo da cama. Como ele. Não alcançadas por aquelas mãos brancas, não sabendo se era de cansaço ou de não pegar Sol durante muito tempo. Não estavam pairando no ar ou caídas em cima de um colchão. Ficaram todas empoeiradas junto com sua preguiça e ressentimentos. Todas as obrigações, ruins ou boas, estavam na poeira.
“Você tem que pegar Sol, estudar muito, ler o que não gosta, assistir TV, fazer exercícios físicos, beber muita água, matar a preguiça, matar presidente, matar a sede com COCA-COLA, aspirar COLA e COCA, aspirar formol nos pulmões (substância que conserva seu cadáver!), viajar para bem longe, procrastinar compromissos, dar conselhos que não prestam, não prestar, não abortar, tomar sorvete, entupir suas artérias, pagar um bom hospital, não passar do sinal vermelho, comer carne vermelha, dissertar a favor das baleias, jogar sacos plásticos no oceano, ter dinheiro”.
Era só para espirrar que ele estava ali, no meio daquele mofo todo. E mais uma vez volta a afirmar que achou aquela razão. Aquela que você sabe qual é! Não seja bobo, claro que tem idéia do que ele encontrou ali embaixo!
Levantou suas costas marcadas de traços avermelhados do chão liso, envernizado e ligeiramente desconfortável para estampar um couro listrado como de um animal selvagem. Mas era civilizado demais para abrir mão de obrigações tão importantes. Mesmo que conseguisse ignorar algumas. Desdenhou do horário a ser seguido e agora se sentia feliz. Uma felicidade tão sórdida como a de. Como a de...
Felicidade? Do que ele estava falando? De bater uma com “Cine privé”? Puta que o pariu (outra obrigação: não usar gestos e palavras obscenas), e como emendava o ócio com tanta facilidade! Que a palavra (não confundir com razão) encontrada não seja felicidade, mas facilidade. Sem esquecer que matar é um dos atos mais fáceis do mundo.
Mate seus compromissos e será um homem morto!
Facilite seus compromissos e será um homem facilitado!
E já não é o suficiente dizer que achou a razão, agora quer fazer trocadilhos infames para que se sinta o mais racional possível. Acho que é mais fácil se deitar novamente no chão e enfiar a cara debaixo da poeira, para tentar cumprir a obrigação de pegar conjuntivite. Sentia-se feliz por encontrar a razão que todos esperam para ouvir há muito tempo. E depois de tudo não teria mais que cumprir nenhuma obrigação. Não era maravilhoso? E ele disse para si mesmo.
Vamos, leitor! Você sabe o que ele disse! Não se sinta desnorteado! É tão óbvio que eu não preciso nem fazer esforço. O esforço já foi feito por ele. Apenas cumpra ordens, já que foi ele quem achou a razão óbvia, não você! Lembre-se que não se trata do sentido da vida ou para onde ruma a humanidade. É algo bem mais sutil.

