Saturday, July 15, 2006

DDA

Era fácil quando á princípio todos falavam, se mexiam, e pensavam apenas com sua permissão. E como eram lindos todos os seus títeres. Roupas perfeitas, corpos bem esculpidos e uma infinidade de pontos criativos originados de sua mente frustrada por não expô-los em público. Por nunca ter um palco.
De tempos em tempos era cada vez mais difícil mantê-los. Tudo gradativamente virava uma bagunça. E não somente os títeres, mas os cenários começavam a ter um leve toque de perfeição ao seu ponto de vista. Tudo estava detalhado e cheio de vida. Até certo ponto em que aqueles bonecos começassem a falar, se mexer e pensar por conta própria. Mas os anos passavam e era cada vez menos possível controlá-los. A bagunça reinou definitivamente.
Ficava cada vez mais assustado ao observar a grama e as árvores crescerem em cenários sintéticos e desprezíveis. Os títeres não precisavam mais de cordas. Construíram um imenso mundo onde cidades, florestas, vidas e mortes eram cada vez mais reais. E nesse mundo tudo era a cópia perfeita do real.
Ele então fez daquele lugar sua segunda casa que, dêsde sua infância, projetara. Cópias perfeitas que imitavam a imperfeição são diariamente criadas. Tudo junto com a frustração de não expô-las em público. Não existe palco tão imenso para comportar um mundo que o transformou em um grande títere. Agora era dependente de imaginar e não queria mais voltar à realidade cruel.
Tão concreto e intocável. Essencial e obsoleto. Eterno enquanto efêmero. A ponto de as idéias descartáveis reinarem. A destruição de suas memórias do mundo real são mais constantes. A falta de concentração. E como os habitantes do mundo imaginário gostavam daquele momento! Para eles a alternância é necessária. Ou criatividade, ou concentração. Não se pode ter os dois.
O sonho dos títeres era expor suas idéias. E vê-lo em um palco. Pena que ele seja tão grande.