Sunday, November 05, 2006

10 m²

Quantos metros quadrados de sentimentos você poderia ter? Pode ser 20? 30? Não. Você tem 10 metros quadrados. É a quantidade para tudo aquilo que está pulverizado pelo ar de sua sala. Nem picotado. Eu disse que virou pó. Isso mesmo. Pó. Ou até menos que isso. Do jeito que caiu em seus ombros e não sentiu nem o peso de meia grama. Estava muito leve. Mas homogêneo para os 10 metros quadrados.

Ao seu redor você olha uma cama, um telefone, geladeira, TV, livros, porcaria, banheiro, fogão, grades na janela, armarinho, e o que achar que pode esconder num lugar pequeno para você e enorme o suficiente para seus sentimentos. Até porque lembrou da riqueza do seu pai. É isso mesmo que pensa! Por que não morar num lugar do tamanho do closed do quarto do velho? Lembra não? Não?! Era para lembrar! Sua infância vivida ao lado de seu pai e VOCÊ entrando no closed para ver os presentes que ele escondeu para o natal próximo. Mas passado, agora. Próximas estavam as décadas.

Impostas talvez pelo temido “Não Sei Quenzinho”. É sim aquele rapaz simpático que vai ligar daqui a pouco. Só esperar a ligação dele. Mas e seu medo de atender? Sim. Está unido ao pó que nem sente em seus ombros. Aquela mulher estúpida que é sua secretária sempre o chama de “Não Sei Quenzinho”! Ô mulher irritante! Se todos encontram o homem uma vez na vida, como ela consegue encontrá-lo tantas vezes? A verdade é que nem se sabe se é homem. Pode ser uma mulher. Já que ninguém conta como é seu rosto. Cabe a você descobrir olhando-o.

O telefone toca. Você fica tão nervoso que deixa a secretária eletrônica atender. Deixe seu recado após o bip: “Sou eu novamente! Não é “Não Sei Quenzinho”. “Não Sei Quenzinho” mandou-me dizer ao senhor, que sei que está aí, que ele está a caminho, viu? “Não Sei Quenzinho” disse que quer mostrar a coleção de foices preferidas dele! Ele é fazendeiro? Ele me mostrou uma e é muito bonita! Boa tarde. Tchau!” – tu-tu-tu-tu-tu.

Ele está a caminho! Epa! Por essa não esperava. Está agora com inveja de seus sentimentos pulverizados. Mas a inveja foi pulverizada também. Então o que sente? Senta! Descansa! Olha para a sua janela e arranca as grades. Ele vai demorar uma década para chegar. Sabe disso! Então é só abrir a porta da frente e correr! Fugir dele. Mas tem o risco de encontrá-lo de pé no seu carpete prestes a apertar a campainha. Aí o susto será pior que a conformidade do fato. Até porque a década pode durar três segundos, ou até vinte anos. Não faz idéia. Arranque as grades.

Nem tem mais forças para isso. Está velho demais. E é exatamente por isso que “Não Sei Quenzinho” quer te ver! Então tem a opção de deitar na cama e esperá-lo. Examinando móveis duros o suficiente daqueles 10 metros quadrados para quebrar a passagem bloqueada para a sua liberdade. Mas você pularia mesmo do décimo andar? E se ele lhe encontrar no meio da rua? Aí vai conversar com você. Olha. É inevitável. Deita! A campainha acabou de tocar. Nem demorou tanto assim. Seus sentimentos foram pulverizados e agora sua porta foi também. Aquele rosto simpático lhe olha e só o que pensa é “Ó meu Deus, eu sabia que “Não Sei Quenzinho” era assim!”. Ele sorrindo e fala: “Quer conhecer minha foice?”.

Responda que não quer por não ser fazendeiro. Mas “Não Sei Quenzinho” é sagaz e vai te contrariar. Até que pare de respirar você pergunta. E nem o seu pai foi fazendeiro. Até porque é muito difícil encontrar um fazendeiro com um closed do tamanho do seu pequeno apartamento. São só 10 metros quadrados de perguntas a fazer para “Não Sei Quenzinho”. Então começa.

3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Post nostálgico..acabei recordando minha infância ;~

12:21 PM  
Anonymous Anonymous said...

can’t believe how strange it is to be anything at all.
:~

1:31 PM  
Blogger Roger Jones said...

muito bim, cara...
e após essa sua divagação espaço-afetiva, acho que entendo White Intermediate quando ele disse que "o espaço é uma invenção do nosso medo... o tempo é uma invenção da nossa ambição".

2:07 PM  

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