Saturday, May 20, 2006

R$1,00

Pobre alma que pensava ser nobre por ajudar uma família largada na calçada dando-lhes uma moeda de um real. E aquela moeda de 1994, já fustigada pelo tempo, era um grande tesouro agora. Sentia-se mais valorizada do que nunca nas mãos de um pai de três crianças. Aquelas mãos enrugadas que tocavam o níquel e o apertavam com força davam-lhe esperanças de juntar mais algumas moedas e comprar leite para os filhos. O mundo não é tão ideal assim. A moeda foi jogada na mesa de um bar para sustentar o vício de alguém que mal sustenta o peso do próprio corpo. Nem crianças.
Aquele era um motivo de vergonha já questionado em várias faculdades de humanas. E o símbolo do capitalismo cada vez mais esquecido pelo seu grau de ameaça à sociedade futura. Aquela moeda há muito tempo pensava que não servia para nada que fosse necessário. Quantas vezes já repousou em mesas de bares, lojas de contrabandos, bolsas, bolsos, maquinas de lavar roupa, mãos de mendigos, bocas de bebês, caixas de supermercados, caixas de camelôs, caixas de lojas, caixas e mais caixas?
A moeda sabia que já não servia para ajudar ninguém. E nunca serviu. É difícil tomar um rumo em uma sociedade que só dá valor a notas de cem reais.

Desafio nenhum era adivinhar qual seria o próximo lugar que iria parar. Talvez fosse para um ônibus destruído pelo povo que o usa. E com toda a sua experiência de vida, daria um salário menos digno aos trabalhadores que tanto são oprimidos por fazerem greves. E nunca pedem desculpa por tentarem sobreviver. Como quem que talvez as ouvisse pedisse desculpas por tanto desonrar aquela moeda de um real!
Mas dessa vez não parou em um de seus pontos óbvios. Foi diferente. Foi útil para alguma coisa. Caiu em um esgoto. Muito admirada ficava com o fato de ter agora um destino tão improvável. Viajou para bem longe e foi sugada por um cano. Enfim cumpriu sua missão. Entupiu a privada de onde caem os dejetos do pobre que se diz nobre ao dar um bem tão supérfluo a um cobrador de ônibus desempregado. Largado na calçada com os filhos. Como aquela moeda já foi um dia.

Saturday, May 13, 2006

Erro nº278³³ncjkkpi = 3




É fenomenal o jeito que a tecnologia evolui. E todos os conceitos de praticidade vão-se pelo ralo das micro-engrenagens já descartadas. Ultrapassadas. Agora o prático não precisa nem mais disso. Querer ligações de elétrons para fazer computadores sem botões não é pedir demais? E, sem querer ofender, mas os homo-sapiens já estão despedindo-se de seu cansado mundo. Que máquina sentimental liga realmente para outra espécie que não seja a dela?
Há décadas o analógico virou apenas um diagnóstico dado àqueles que temem o digital. E o digital foi dando espaço ao que podemos chamar de interfase da sinapse neural eletrônica. Mais conhecido como I.S.N.E..
Não que haja uma hipérbole em comentar sobre algo que está além da imaginação futura de um robô de Q.I. de 280, mas esse sistema não passa de uma falha da humanidade. A I.S.N.E. ainda não foi criada por ninguém. Trata-se de um sistema simplório onde é possível ligar seu cérebro a um monitor.
O certo é que ela começasse a ser imaginada em cérebros daqui em algumas décadas futuras. Entretanto minha imaginação tem pressa em falar que, se não “amanhã”, “depois de amanhã” um de nós chegará para o neto e dará uma bola de presente para ele.
E ele perguntará um absurdo: onde está o botão de ligar?
E ouvirá um “não há nenhum botão”.
E ele responderá: UAU! Nunca vi algo parecido! Um objeto que não precisa ser ligado! Que genial! Adorei o presente! Altamente tecnológico!

__Era só uma bola de látex__
O ponto onde quero chegar é que não há um real avanço na mente humana. Há uma adaptação ao meio. Nunca iremos chegar a uma inteligência suprema. Sempre seremos animais ignorantes e carniceiros que se adaptaram a comer carne já morta. De sangue já frio. E aprendemos a fritá-la em uma frigideira feita, projetada e calculada pelas máquinas misteriosas que nos rodeiam. Máquinas que podem chegar a uma inteligência suprema e não adaptarem-se ao meio onde “vivem”.
E todo esse pedantismo que as máquinas me proporcionaram foi para dizer que somos inferiores às máquinas. E há uma recíproca.

Tecnologia linda que une famílias. Não tens culpa se irmãos brigam com um “Se não sair logo desse computador eu quebro a sua cara!”. Você apenas não se adapta.