Bolhas
Boicotando seu jeito de ser e desabafando às reticências de uma sabedoria forjada, ele não se imaginava circundado por tanta gente sem escrúpulos. Mas estava. Olhou para todas as direções possíveis de dar uma trégua a sua mente saindo de lá. Todos eram desagradáveis. Mas nem sempre.
Naquela noite errara em tudo. Nos sapatos de couro encomendados, na cor da gravata, na décima taça de vinho que segurava na mão. E tudo à sua volta rodopiava em demasiada velocidade. E os que já não tinham nexo ao conversar, agora grasnavam na direção de seus tímpanos como se gritassem “vá embora daqui!”.
Embaixo daquela lua pesada e cheia do jardim da casa de seu pai, tentava se manter em pé diante aquela gente que ameaçava o tempo todo presenciar um possível vexame. Era em agonia que suas narinas começavam a fazer esforço para capturar o ar que parecia estar preso à grama. E estava. Tinha cheiro. Que para ele não era bom.
Riam, comiam, bebiam e conversavam todos sem reparar na falta de ciência em qualquer tipo de assunto que discerniam em palavras de status social alto. Mas todos não passavam de analfabetos funcionais para ele. Ligeiramente (?) bêbado, estava começando a ver uma realidade não usada antes por seu ego e consciência.
Depois de sua incessante procura por uma saída, no meio daqueles convidados de mentes inóspitas e desagradáveis de se tentar adivinhar, encontrou uma salvação. Uma brecha entre um casal se servindo de canapés, pediu licença e foi ao toalete. É lá que covardes imaturos resolvem seus problemas indignos de serem exibidos em publico.
Encheu a pia de água. A principio queria afogar suas mágoas, mas agora só queria se curar do porre. Era cedo e tinha saudades da infância. Agora está tarde para sentir o que for por ela. Vida fácil dês de que nasceu. Nunca lhe faltou nada. Nem o amor de seus pais e nem brinquedos caros vindos do estrangeiro.
Após lembranças, teve vontade de desaparecer depois de recuperar sua definhada consciência. Nunca a usara antes. Mas a conseguia usar neste momento em uma situação totalmente hostil para ser usada. Estava embriagado, não conseguia respirar. E todos que eram considerados seus amigos estavam lá fora. Ninguém o seguiu. Sóbrio não notaria isso. Riam, comiam, bebiam, conversavam todos sem reparar sua ausência e sua ida ao toalete. Aqueles eram seus amigos. Não.
A primeira bolha saiu de sua narina. A festa estava ótima. Bebidas e comidas à vontade para duzentos convidados elegantes. Todos que lá estavam mereciam méritos e mais méritos de tal promiscuidade que assombrava o salão de festas, o jardim e o salão de entrada. E as comidas e bebidas deliciosas o fizeram realmente passar mal.
A lucidez daquele álcool alojado em seu cérebro era maior do que quando não bebia nenhuma droga licita. Ele parecia ter ficado entorpecido a vida inteira para não enxergar a realidade que a embriaguês tinha proporcionado naquela noite de lua pesada e cheia. Viu que tudo era fácil e conseguia o que queria. Seus pais sempre lhe ajudavam no que necessitasse e era invejado por muitos que estavam naquele jardim com cheiro da grama que prendia todo o ar da noite. E agora ele saltava mais bolhas pelas narinas. E seus olhos começavam a revirar.
O duro era enxergar entre tantas bolhas, depois de estar bêbado que, em toda a sua medíocre vida estava sempre acompanhado daquelas pessoas e era submisso a seu pai. Sempre achava justo. Ganhava tudo o que queria para simplesmente obedecer toda a ética amoral daquele velho homem. Formou-se em medicina sem ter gostado de biologia e química na escola. O pai estava feliz com a ação do filho, mas ele.
Seus pulmões agora contraiam-se rapidamente deixando assim todas as bolhas escaparem. Conseguiu ver todas as suas aflições sobre sua falta de iniciativa para conseguir liberdade de pensar por si próprio sem a intervenção do pai. Porém, não conseguia se lembrar do motivo de sua embriagues.
Um convidado entrou no toalete e olhou para o pobre rapaz com a cabeça mergulhada na pia transbordando água. Tirou-o de lá imediatamente. Estava há quase um minuto sem respirar. Engoliu água.
Deitado no chão via seu pai e alguns convidados o observando aflitos. Todos giravam rapidamente como em uma centrifugadora. Vendo todos, lembrou que resolveu ficar bêbado não por algum motivo grave, mas simplesmente por não ter conseguido o que queria. Todos viram que ele agira como uma criança mimada, o que para ele poderia ser interpretado como alívio. Enfim conseguiu expressar seus sentimentos pela primeira vez na frente de algum ser humano.
Ficou assim quando seu pai disse que ele teria que trabalhar se quisesse ganhar algo a partir daquele dia. Não gostou de saber disso antes da festa começar. Não gostou de saber que ia trabalhar em uma carreira que detestava. Não acreditava que ia ser médico. E lá, foi carregado por aqueles homens e levado para tomar banho e dormir.
Enfim sonhava com uma futura e possível liberdade. Algo que parecia com bolhas flutuando vagarosamente para cima. Sua liberdade iria ser aquilo daqui para frente. Uma bolha livre que vagava para cima, sem saber que seu destino seria padecer e estourar na superfície da água.



4 Comments:
Problema dos COMENTÁRIOS resolvido!
Por isso eu larguei computaçao e to fazendo quimica...
Ficar preso a algo certo, não da certo... pois por mais q pareça nada é certo o suficiente para confiar que vai da certo. xD
eu axo q nunca vou saber o q [e certo...
so por causa dakele bendito `e se...`
=***
Bem melhor assim, aberto ao públibo
hehehehe
Como falei no teu flog, adorei o texto.
Aguardo novas atualizações.
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