
A cada dia que ele respira, fala, dorme. A cada dia que ele vive como um desesperado a saber como será o dia de amanhã. É a vulnerabilidade dele. É a vulnerabilidade de um super-herói. Existindo vários no mundo, era o que ele não era. Mas costumava pensar o contrário. Costumava pensar que tinha nascido com asas.
Não age naturalmente, pensando sempre estar sendo observado. E por isso sua timidez ao tentar voar é grande. Não quer errar na frente de ninguém. Mas erra o tempo todo em terra. Sempre deixando-se revelar, sem querer, sua identidade secreta. Todos riem. Dão muitas risadas. Ele sabe que é com ele. Sabe que o ridículo era ele. Aí sua teoria maluca ao explicar para o único ser que o entende, um cachorro:
- Quando eu falo que estou sendo observado sempre, não estou brincando! Toda vez que tento fazer algo certo aparece alguém para me atrapalhar! O pior é que conseguem. Eu erro e dão muitas risadas. É assim que as coisas funcionam, Cão. Eu faço, eles ficam de olho e dão risadas. Eu erro.
O cachorro sempre apreensivo responde:
- Então pare de bancar o super-herói. Quero dizer... AU, AU!
Sabia que Cão estava certo, mas ele nasceu para aquilo e tinha que continuar. Já fizeram o favor de colocar grades em seu apartamento para que ele não voasse novamente. Da última vez que tentou, segundo ele, alguém que o observava escondido apareceu e o atrapalhou. Quebrou as duas pernas. Sorte que era o terceiro andar. Uma pena não estar incluído em seus poderes o duro-como-aço.
- Eu temo revelar minha identidade secreta. Quero que as pessoas continuem a pensar que sou um maluco internado. Mas não sou. Sou um super-herói preso nesta sala branca. Pronto para salvar o mundo! Foi você que me internou, Cão. Sei que foi para o meu bem. Mas acho que eu poderia continuar salvando a todos.
- Mas TODOS é que te salvavam. Quero dizer... AU, AU, AU!
Sua capa estava pendurada na cadeira, sua máscara largada no chão e sua roupa colante ainda estava colada em seu corpo. Roupa branca que amarrava seus braços. Tinha que sair para salvar... Salvar... O quê? Pensando no trocadilho mais clichê que a vida poderia lhe proporcionar em ensinamentos eternos e pobres, ele era o salvador dos frascos e comprimidos. E se entupia de comprimidos. Só assim pegava no sono. Para salvar mais no mundo dos sonhos. Onde não tinha Cão para interná-lo. Nem observadores para rirem e observarem dores.
- Ontem eu salvei, Cão. Hoje salvo e amanhã salvarei.
- Seu nome deveria ser salva-dor. Quero dizer... AU! – disse o Cão.
- Acho que não, Cão. Já deve existir um super-herói com esse nome. Deve ser até um louco que pensa que pode voar.
- Ta certo. Você é normal. Digo... AU!
- Enfermeira! Tire este cachorro sarcástico da minha frente!
Tornar-se alguém que ajuda não é simples, pois é preciso força de vontade. Tornar-se um herói não é fácil, pois é preciso coragem. Tornar-se um super-herói é dificílimo, pois exige loucura. Mas ninguém é louco. Apenas observado demais. Com aquela ânsia de viver só para saber como será o dia de amanhã.