Monday, February 26, 2007

Frustração em cacos

Esperou tanto que nem fazia mais Sol em pleno verão. A cor cinza do mar fundiu-se com a do céu tornando o horizonte um invisível abismo que entornava toda a paciência que se concentrava naquele apartamento. Que pelo menos tinha vista para o mar para distraí-lo enquanto ele esperava. E como fez com êxito. Tanto que o levou a um grande estado de euforia quando a campainha tocou e o fez derrubar a caneca de café preferida no chão ao correr para atender a porta.
O amor amolece e emburrece a todos. Não precisa que ninguém passe este conhecimento adiante para que todos saibam. O lado mais fácil de entender é este. E para falar a verdade, o único.
Sabia que não era o que e nem quem estava esperando. Era só o zelador do prédio recolhendo o lixo de cada apartamento daquele prédio. Não valeu nem a pena deixar quebrar a caneca preferida por algo e alguém que esperava. Nem sequer tinha lixo para entregar, a não ser pelos cacos que o zelador esperou pacientemente ele catar. Talvez a paciência do zelador fosse até superior à paciência que ele tinha em esperar.
Dias passaram e campainhas tocaram. A vista da janela continuava cinza, sendo agora inverno. Agora até duvidava que viesse algum dia de Sol enquanto esperava. Era só pra ele aquele cinza. Um cinzeiro, um vaso de planta e até a tevê da sala caíram no chão com sua correria, já não tão eufórica, para atender a porta. Esperar por algo e alguém que tinha quase certeza que nunca apareceria era muito doloroso. Ele podia muito bem sair ao encontro do que e de quem esperava, mas o amor não o deixa sair do apartamento. O amor o deixa com medo. E a frustração já fez com que ele imaginasse a mala acompanhada de seu amor na porta da frente. Vieram pra ficar. Mas ao imaginar isto quebrou um prato que estava em seu colo enquanto comia escutando música no sofá da sala. E ao abrir a porta o zelador pacientemente pergunta:

- Quais são os cacos de hoje?