Flash-back da chave estrela
Voltei para lá dez anos depois. Ainda guardava aquela chave que eu tanto achava estranha. Era uma “chave-estrela” daquelas redondinhas para abrir a porta da frente. Abri, e lá estava o mesmo menino de dez anos atrás no meio do tapete da sala. Estava de pé olhando-me fixamente nos olhos. Eu já estava tremendo. Sorri e dei três passos largos em sua direção, me ajoelhei e comecei a beijá-lo várias vezes nas bochechas e na testa. O abracei forte. Passei a mão naquele cabelo lisinho que só ele, tão novinho, tinha e comecei a fazer o cafuné que ele tanto gostava.
- Como senti sua falta, garoto! Dez anos sem lhe ver. – o menino, que tinha dificuldade em raciocínio, conseguiu analisar o grave erro:
- Se eu tenho oito anos de idade, como pode você ter me visto pela última vez há dez anos atrás? – se ele soubesse... Faltou-me coragem.
- O que importa saber isso se você nem lembra quem sou? – disfarcei.
- Você é algum primo ou tio meu? Não lembro de você, mas que se parece comigo, parece.
- Calado, menino. Me dá outro abraço.- e do abraço eu peguei a criança no colo e a levei até a rede do quarto da mãe. Coloquei-o para balançar cantando a música mais bonita que eu conhecia. Ele adormeceu e acabou que não contei. Chorei de alegria ou de alívio. Ou até dos dois. Eu não sabia. Saí da casa sem fazer barulho.
Eu não queria confundir a cabeça do garoto. Mais do que já está por meu egoísmo de querer matar uma saudade. Não queria contar que ele é o responsável pela minha existência. Pelos meus dezoito anos de idade. Não queria agradecer por ele ser tão distraído a ponto de salvar a vida várias vezes. Isso me manteve vivo até hoje.
Porém vivendo em constante medo de voltar para agradecer e deixa-lo maluco. Por isso não falei nada. Acabei estragando tudo, sabe? Só por tê-lo visto pela última vez há dez anos atrás. E por isso fiz questão de esquecer a chave-estrela da porta da frente lá. Para que ele continue distraído e dez anos mais tarde, quando tiver dezoito anos, repetir o que fiz para encontrar o garoto. Para ele se encontrar. Já que eu, sem a chave estrela, não tenho mais como voltar. Nunca mais.


4 Comments:
Cuidado com o efeito borboleta...
Teoria do caos!
=**
Pura nostalgia, sempre bom!
lindo como sempre ^^
estou voltando a esse mundo bloggueiro xD
bjus rafa, saudades ein?
Não se mata saudade...
Apenas esquece que ela existe...
ou por aí... - e esquece?!
:***
Dreia
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