Saturday, August 26, 2006

Pseudo diálogo

Os dois sentam-se à mesa. Um pega seus óculos escuros para ninguém reparar em seus olhos. O outro abre o caderno feito para que todos o entendam e o usa para “falar”:

- Agora essa folha não está mais em branco. Odeio folhas em branco e todos sabem disso. Não sei qual mania tenho eu de boicotar minhas próprias idéias quando não há nada por perto. Só eu. Você viu ontem? Quando escrevi em meu caderno antigo com tinta preta? Escrevi até as folhas ficarem totalmente pretas. Agora vou pegar uma caneta de tinta branca e começar tudo de novo. Mas assim não vou destruir meus textos antigos? Como eu ia dizendo sobre boicotar minhas próprias idéias? Como disse mesmo ontem? Para eu parar de fazer perguntas? Sim. E acho que odeio demais folhas em branco para usar tinta branca. Só que não foi você mesmo ontem que disse que o branco indicava o vazio? Mas e o vácuo, conteúdo principal desse universo vazio e PRETO? É verdade. Tenho que parar de fazer perguntas. Falou isso para fugir do assunto, não foi? Ou será que não tem resposta para nada que digo? Acho que não. Não suporta minhas dúvidas por nem mesmo suportar as suas. É que sua mente de vez em quando parece ser uma folha em branco. Ou em preto? Aí além de minhas idéias, estou boicotando as suas. É que eu esqueço que você não gosta de escrever. Mas eu não gosto de falar. E por isso eu encharco a folha de papel com tinta. Só porque eu não posso falar? Sem perguntas. Não. É para escrever sempre por cima. Desperdício de idéias, sabe. Não só porque sou surdo-mudo. Á propósito... Você é cego. E não sei braile. Como pode? Tudo bem. Não farei mais perguntas. Só mais uma coisa... Acabou? – dizia o outro enquanto um se levantava e saía da sala. Parecia estar incomodado com tantas perguntas.

Thursday, August 17, 2006

Flash-back da chave estrela

Voltei para lá dez anos depois. Ainda guardava aquela chave que eu tanto achava estranha. Era uma “chave-estrela” daquelas redondinhas para abrir a porta da frente. Abri, e lá estava o mesmo menino de dez anos atrás no meio do tapete da sala. Estava de pé olhando-me fixamente nos olhos. Eu já estava tremendo. Sorri e dei três passos largos em sua direção, me ajoelhei e comecei a beijá-lo várias vezes nas bochechas e na testa. O abracei forte. Passei a mão naquele cabelo lisinho que só ele, tão novinho, tinha e comecei a fazer o cafuné que ele tanto gostava.

- Como senti sua falta, garoto! Dez anos sem lhe ver. – o menino, que tinha dificuldade em raciocínio, conseguiu analisar o grave erro:

- Se eu tenho oito anos de idade, como pode você ter me visto pela última vez há dez anos atrás? – se ele soubesse... Faltou-me coragem.

- O que importa saber isso se você nem lembra quem sou? – disfarcei.

- Você é algum primo ou tio meu? Não lembro de você, mas que se parece comigo, parece.

- Calado, menino. Me dá outro abraço.- e do abraço eu peguei a criança no colo e a levei até a rede do quarto da mãe. Coloquei-o para balançar cantando a música mais bonita que eu conhecia. Ele adormeceu e acabou que não contei. Chorei de alegria ou de alívio. Ou até dos dois. Eu não sabia. Saí da casa sem fazer barulho.

Eu não queria confundir a cabeça do garoto. Mais do que já está por meu egoísmo de querer matar uma saudade. Não queria contar que ele é o responsável pela minha existência. Pelos meus dezoito anos de idade. Não queria agradecer por ele ser tão distraído a ponto de salvar a vida várias vezes. Isso me manteve vivo até hoje.

Porém vivendo em constante medo de voltar para agradecer e deixa-lo maluco. Por isso não falei nada. Acabei estragando tudo, sabe? Só por tê-lo visto pela última vez há dez anos atrás. E por isso fiz questão de esquecer a chave-estrela da porta da frente lá. Para que ele continue distraído e dez anos mais tarde, quando tiver dezoito anos, repetir o que fiz para encontrar o garoto. Para ele se encontrar. Já que eu, sem a chave estrela, não tenho mais como voltar. Nunca mais.