Frustração em cacos
Esperou tanto que nem fazia mais Sol em pleno verão. A cor cinza do mar fundiu-se com a do céu tornando o horizonte um invisível abismo que entornava toda a paciência que se concentrava naquele apartamento. Que pelo menos tinha vista para o mar para distraí-lo enquanto ele esperava. E como fez com êxito. Tanto que o levou a um grande estado de euforia quando a campainha tocou e o fez derrubar a caneca de café preferida no chão ao correr para atender a porta.
O amor amolece e emburrece a todos. Não precisa que ninguém passe este conhecimento adiante para que todos saibam. O lado mais fácil de entender é este. E para falar a verdade, o único.
Sabia que não era o que e nem quem estava esperando. Era só o zelador do prédio recolhendo o lixo de cada apartamento daquele prédio. Não valeu nem a pena deixar quebrar a caneca preferida por algo e alguém que esperava. Nem sequer tinha lixo para entregar, a não ser pelos cacos que o zelador esperou pacientemente ele catar. Talvez a paciência do zelador fosse até superior à paciência que ele tinha em esperar.
Dias passaram e campainhas tocaram. A vista da janela continuava cinza, sendo agora inverno. Agora até duvidava que viesse algum dia de Sol enquanto esperava. Era só pra ele aquele cinza. Um cinzeiro, um vaso de planta e até a tevê da sala caíram no chão com sua correria, já não tão eufórica, para atender a porta. Esperar por algo e alguém que tinha quase certeza que nunca apareceria era muito doloroso. Ele podia muito bem sair ao encontro do que e de quem esperava, mas o amor não o deixa sair do apartamento. O amor o deixa com medo. E a frustração já fez com que ele imaginasse a mala acompanhada de seu amor na porta da frente. Vieram pra ficar. Mas ao imaginar isto quebrou um prato que estava em seu colo enquanto comia escutando música no sofá da sala. E ao abrir a porta o zelador pacientemente pergunta:
- Quais são os cacos de hoje?


9 Comments:
Os cacos de uma vida inteira. Poderiam ser os cacos de todos os dias. Poderiam ser os cacos de uma vida inteira. A cada dia chega alguém; sai alguém; volta alguém; alguém volta a ir embora...
Gostei de muitos textos por aqui. Tenho um novo lar para passar meus bons momentos de leitura. Por mais que eu prefira que você escreva um livro, eu vá comprá-lo e depois me dedique com um autógrafo.
Abraço, Cleber!
Realmente, a anciosidade é um saco -.-
Mas nunca cheguei a quebrar nada x]
O apartamento ao lado.
Parte um: A carapaça.
Estava sentada, ha minutos de milênios, esperando. No chão, pernas cruzadas. Dez minutos de cigarro chegando ao fim. Os devaneios externificando. Voando, formando imagens com a fumaça. O vento, tímido, balançava a cortina. O vento tímido afastava a fumaça. Sentimentos petrificados. A dúvida entre derreter o gelo ou mante-lo estático. A duvida.
Seu olhar direcionou-se para o céu. Estava azul, limpo. Estava frio como o gelo. Tum tum, tum tum. As batidas do seu coração se confundiam na sua mente. "Só poderia ser uma criação, um retorno ao passado", pensava. "Um musculo morto jamais pulsaria". Tum tum. Eram apenas batidas na porta.
Parte dois: Inferno interno.
Levantou-se e sua parcela humana sentiu um pouco de agua escorrer por dentro. Segurou a maçaneta com firmeza. Abriu a porta. Não era ninguem. Sentiu vergonha por aquele momento. Acreditou, por alguns segundos, que alguem estaria do outro lado, envergonhado, esperando por um drink ou um abraço. Apenas esperou alguem do outro lado. Bateu a porta.
Parte tres: Paraíso ao seu lado.
Voltou-se para grande janela. Agora o vento estava mais forte. Nuvens surgiam dentro daquele azul profundo. Os desenhos se misturavam. O cigarro tinha chegado ao fim e ela nem notara. Estava segurando, ha tanto tempo, um filtro inutil, sujo e velho. Sua mão tremula acendeu mais um. Acendeu mais um passo perto do fim. E alí continuou observando as nuvens. Observando a vida. Respirou profundamente. Perdeu-se em pensamentos mais uma vez, mesmos sem saber. Perdeu-se em esperas.
um texto brilhante, como de costume... cheio de imagens e angústias, de realidades e súplicas...
o mais legal em literatura é quando ela não quer ser literária e quando o que aparece não é o autor e sim o texto.
então tem um texto aí, cheio de luz translúcida sobre o cinza lúgubre e profundo dos sentimentos sutil ou hostilmente propostos... há mínimos e imensos cacos que ao acaso se distribuem ríspidos e drásticos no duro chão da história e nutrem um sentido aleatório às circunstâncias da vida... e sinceramente, este meu parágrafo analítico foi espetacular embora eu não tenha, nem de longe, compreendido o que quis dizer...
¬¬
o que importa é que você já se aventura a ser um autor de literatura de verdade... é uma baita aventura isso, saca ? é divertido e perigoso expor-se-se-nos assim...
mas vale uma vida.
porque, como dizem, a gente vai embora... mas as palavras ficam.
as tuas palavras ficam, Rafa... realmente ficam... parabéns ! porque elas têm, sei lá, um universo, acho...
a campainha tocou, cara...
você está comprometido com a literatura... carregue essa cruz, não adianta reclamar...
mas sabe ? carregar cruz é super fashion... e faz a gente pegar um monte de mulher...
¬¬
vc já tinha me mostrado esse texto, eh mto bom mesmo =P como já t disse espero algum dia ser tão bom quanto vc =P ah! e me inspirando em vc reabri meu weblogger, mas criei um pra postar meus textos, comecei com um q fiz hj no buzu =P leia lah dps http://veunegro.weblogger.terra.com.br
:D abraço
Gosto do modo como você escreveu. Leve, como se fluísse. Como leitor, fiquei ansioso por um algo que não sei exatamente o quê no final, mas não quebrarei nada. Depois de me atordoar, captei como o que era.
Se houver planos de continuação, eu quero. Minha opinião não é referência, mas penso que daria um conto mais longo. ;] Se não, terei que aceitar para não ficar a olhar horizontes por estações do ano.
Adorei o final, Rafa. Você manteve a tensão da espera e trouxe para o leitor a mesma sensação de frustração que o personagem vivia no conto, mas o final tem um tom dramático especial e não piegas, o que faz o texto continuar fora dos limites do ponto. Até quando esperamos? Os cacos deixarão de ser o resultado de todas as buscas e esperas?
Todas as vezes que o personagem quebrava algo é como se este ato não pensado fosse a metáfora do estilhaçamento mudo que ele sofria. Externamente, através da caneca quebrada, você trouxe o despedaçamento do personagem quando via suas expectativas novamente frustradas.
Gostei do texto, menino querido, porque você trabalhou a angústia,a expectativa, a frustração bem. :**************
Beijos
Jana
Sinceramente ... pensei em 1.000.000 de coisas pra escrever - e até escrevi - mas não foram boas o suficiente. Então só vou dizer que eu adoro ler seus "contos" - posso chamar assim né? =P - e q este está otimo como sempre..
Beijão garoto!
Saudade.
todas as pessoas já disseram tudo. mas acho que ainda tenho uma linha assim: você me impressiona, meu irmão, e é bom te ver crescer bem diante dos olhos. te amo. e isso é bom de sentir.
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