Saturday, March 17, 2007

Mudanças são boas!

Mudei de Blog.

Agora sou do Selva (http://naselva.com/)!
Meu novo endereço é:
http://naselva.com/rafael

Lá darei continuidade ao que eu escrevi aqui.

Saturday, March 03, 2007

Mola amoladora de molares


Desenho no metal
Com lâmina estampada de flores
O que faltava era um mal na crença
De todo o ódio a minha essência

Sacrificando todas minhas dores
Amoladas num único fio
Desfiado em seu desvio
De conduta do que já não é

Em solo encravado põe-se de pé
O corte perfeito de meus ardores
Sangrados do fio á mola
Que mordia-me até agora

Com molares afiados,
Desembainhados,
Rasgados,
Algoz

Nem que seja uma espada veloz
Mas me beija só com uma voz
Emudecida pelo que aguarda
Na estampa de flores que guarda

Na espada de flores que mata
Na mata de flores que eu cortava
Por meu metal
Mau.

Monday, February 26, 2007

Frustração em cacos

Esperou tanto que nem fazia mais Sol em pleno verão. A cor cinza do mar fundiu-se com a do céu tornando o horizonte um invisível abismo que entornava toda a paciência que se concentrava naquele apartamento. Que pelo menos tinha vista para o mar para distraí-lo enquanto ele esperava. E como fez com êxito. Tanto que o levou a um grande estado de euforia quando a campainha tocou e o fez derrubar a caneca de café preferida no chão ao correr para atender a porta.
O amor amolece e emburrece a todos. Não precisa que ninguém passe este conhecimento adiante para que todos saibam. O lado mais fácil de entender é este. E para falar a verdade, o único.
Sabia que não era o que e nem quem estava esperando. Era só o zelador do prédio recolhendo o lixo de cada apartamento daquele prédio. Não valeu nem a pena deixar quebrar a caneca preferida por algo e alguém que esperava. Nem sequer tinha lixo para entregar, a não ser pelos cacos que o zelador esperou pacientemente ele catar. Talvez a paciência do zelador fosse até superior à paciência que ele tinha em esperar.
Dias passaram e campainhas tocaram. A vista da janela continuava cinza, sendo agora inverno. Agora até duvidava que viesse algum dia de Sol enquanto esperava. Era só pra ele aquele cinza. Um cinzeiro, um vaso de planta e até a tevê da sala caíram no chão com sua correria, já não tão eufórica, para atender a porta. Esperar por algo e alguém que tinha quase certeza que nunca apareceria era muito doloroso. Ele podia muito bem sair ao encontro do que e de quem esperava, mas o amor não o deixa sair do apartamento. O amor o deixa com medo. E a frustração já fez com que ele imaginasse a mala acompanhada de seu amor na porta da frente. Vieram pra ficar. Mas ao imaginar isto quebrou um prato que estava em seu colo enquanto comia escutando música no sofá da sala. E ao abrir a porta o zelador pacientemente pergunta:

- Quais são os cacos de hoje?

Tuesday, November 28, 2006

Sobre a mesa onde estudo

Pare e saia
Não quero ser incomodado
Só quero ser acomodado

Ou fica e espera
Fica e coma tudo sobre a mesa
Fica em coma sobre a mesa

E acorda e arrasta
Eu consigo todo o seu domingo
Consigo todos estão dormindo

Até mais que nada
Luto para uma mesa acordada
Luto contra minha mesa cortada

Não sangra e vaza
Que não haja pulso sobre o sonho mudo
Que não sinta impulso, gravidade, tudo

Só existe e passa
Rápido demais para uma queda
Ríspido demais para uma quebra

Tão frágil e dada
Fácil desgrudar-me da mesa cedo
Manter-me acordado sem medo

O tédio já remedia
Toda a falta de uma idéia deitada
Tudo em falta para uma mesa untada

Assando o meu sono
O cheiro está bom
Pego porções e como
Estou deitado então
Saboreie comigo
Saia desse chão
(tudo está comido)
Como em um coma acomodado
Sobre a mesa onde estudo
(diz tudo)

Sunday, November 26, 2006

Sala branca


A cada dia que ele respira, fala, dorme. A cada dia que ele vive como um desesperado a saber como será o dia de amanhã. É a vulnerabilidade dele. É a vulnerabilidade de um super-herói. Existindo vários no mundo, era o que ele não era. Mas costumava pensar o contrário. Costumava pensar que tinha nascido com asas.

Não age naturalmente, pensando sempre estar sendo observado. E por isso sua timidez ao tentar voar é grande. Não quer errar na frente de ninguém. Mas erra o tempo todo em terra. Sempre deixando-se revelar, sem querer, sua identidade secreta. Todos riem. Dão muitas risadas. Ele sabe que é com ele. Sabe que o ridículo era ele. Aí sua teoria maluca ao explicar para o único ser que o entende, um cachorro:

- Quando eu falo que estou sendo observado sempre, não estou brincando! Toda vez que tento fazer algo certo aparece alguém para me atrapalhar! O pior é que conseguem. Eu erro e dão muitas risadas. É assim que as coisas funcionam, Cão. Eu faço, eles ficam de olho e dão risadas. Eu erro.

O cachorro sempre apreensivo responde:

- Então pare de bancar o super-herói. Quero dizer... AU, AU!

Sabia que Cão estava certo, mas ele nasceu para aquilo e tinha que continuar. Já fizeram o favor de colocar grades em seu apartamento para que ele não voasse novamente. Da última vez que tentou, segundo ele, alguém que o observava escondido apareceu e o atrapalhou. Quebrou as duas pernas. Sorte que era o terceiro andar. Uma pena não estar incluído em seus poderes o duro-como-aço.

- Eu temo revelar minha identidade secreta. Quero que as pessoas continuem a pensar que sou um maluco internado. Mas não sou. Sou um super-herói preso nesta sala branca. Pronto para salvar o mundo! Foi você que me internou, Cão. Sei que foi para o meu bem. Mas acho que eu poderia continuar salvando a todos.

- Mas TODOS é que te salvavam. Quero dizer... AU, AU, AU!

Sua capa estava pendurada na cadeira, sua máscara largada no chão e sua roupa colante ainda estava colada em seu corpo. Roupa branca que amarrava seus braços. Tinha que sair para salvar... Salvar... O quê? Pensando no trocadilho mais clichê que a vida poderia lhe proporcionar em ensinamentos eternos e pobres, ele era o salvador dos frascos e comprimidos. E se entupia de comprimidos. Só assim pegava no sono. Para salvar mais no mundo dos sonhos. Onde não tinha Cão para interná-lo. Nem observadores para rirem e observarem dores.

- Ontem eu salvei, Cão. Hoje salvo e amanhã salvarei.

- Seu nome deveria ser salva-dor. Quero dizer... AU! – disse o Cão.

- Acho que não, Cão. Já deve existir um super-herói com esse nome. Deve ser até um louco que pensa que pode voar.

- Ta certo. Você é normal. Digo... AU!

- Enfermeira! Tire este cachorro sarcástico da minha frente!

Tornar-se alguém que ajuda não é simples, pois é preciso força de vontade. Tornar-se um herói não é fácil, pois é preciso coragem. Tornar-se um super-herói é dificílimo, pois exige loucura. Mas ninguém é louco. Apenas observado demais. Com aquela ânsia de viver só para saber como será o dia de amanhã.

Tuesday, November 21, 2006

Sem fundamento algum



Eu escutei um dia desses vindo dos vizinhos do lado:

- Eu não quero mais olhar pra tua cara!

- Não tente fugir de mim se trancando no banheiro!

- É o único lugar desta merda de apartamento onde não preciso olhar pra tua fuça!

- Não grita, porra!!!

- Eu não estou gritando! To calmo! Quem ta gritando aqui e você!

- Sou eu que não quero mais te ver! Saia daí e vá embora de minha casa!

- Não bata na porta, droga!

- ABRA LOGO!

- NÃO BATA!

- Vou arrombar!

- Você não tem força pra isso!

- Eu te odeio!

- Desgraça! Não chuta a porta! Não bata!

- Você vai ficar aí a vida inteira? A janela deste banheiro é pequena demais para você fugir.

- Saio daqui quando você sair daí.

- Então você vai morrer de inanição, porque eu não vou embora!

- Eu como os sabonetes e os papéis-higiênicos!

- Isso é ridículo! Abra! Saia!

- Não bata na porta!

- Eu só queria que vo...

- Não queria nad...

- Você não manda em m...

- PARE DE SER IDI...

- IDIOTA É VO...

- VAI PR...

- VAI VO...

- TOME NO...

- IMBEC...

- MORR...

- CHEEEEEEEEEEEEEGAAAA!!!

- ...

- ...

- Arf.

- Você ainda ta aí?

- ...

- Tomara que não esteja, porque eu vou sair.

- Peguei você!

- Me larga!

- Não vai me bater?

- Como você fez na porta?! Merda! Olha as rachaduras!

- CALA A BOCA!

- Cala vo...

Então um silêncio reina o apartamento. Aquele silêncio que tem um cheiro familiar para todos os animais. Cheiro que impregna nas paredes e nos vidros.

- Não vou parar agora!

- Então bate!

- Toma!

- Com mais força!

- Assim ta bom?

- Não é assim que se faz!

- Você sempre foi exigente!

- Sabe disso, então bate direito.

Os visinhos de baixo escutam barulhos familiares. Os visinhos de cima sentem um cheiro familiar.

- Eu não agüento mais!

- Começou, então termina!

- Eu te odeio!

- Você sempre diz isso!

- Vou parar de bater. Cansa!

- Você ainda tem a tarde inteira.

E você, leitor? Acha que é cheiro de quê? Acha que é barulho de quê? Acha que a briga é sobre o quê? É algo simples demais de pensar e complicado demais de fazer. Juro que me esforcei para imaginar que o motivo de tudo fosse uma reforma no banheiro. Mas não sei se os outros vizinhos eram mais pervertidos.

Sunday, November 05, 2006

10 m²

Quantos metros quadrados de sentimentos você poderia ter? Pode ser 20? 30? Não. Você tem 10 metros quadrados. É a quantidade para tudo aquilo que está pulverizado pelo ar de sua sala. Nem picotado. Eu disse que virou pó. Isso mesmo. Pó. Ou até menos que isso. Do jeito que caiu em seus ombros e não sentiu nem o peso de meia grama. Estava muito leve. Mas homogêneo para os 10 metros quadrados.

Ao seu redor você olha uma cama, um telefone, geladeira, TV, livros, porcaria, banheiro, fogão, grades na janela, armarinho, e o que achar que pode esconder num lugar pequeno para você e enorme o suficiente para seus sentimentos. Até porque lembrou da riqueza do seu pai. É isso mesmo que pensa! Por que não morar num lugar do tamanho do closed do quarto do velho? Lembra não? Não?! Era para lembrar! Sua infância vivida ao lado de seu pai e VOCÊ entrando no closed para ver os presentes que ele escondeu para o natal próximo. Mas passado, agora. Próximas estavam as décadas.

Impostas talvez pelo temido “Não Sei Quenzinho”. É sim aquele rapaz simpático que vai ligar daqui a pouco. Só esperar a ligação dele. Mas e seu medo de atender? Sim. Está unido ao pó que nem sente em seus ombros. Aquela mulher estúpida que é sua secretária sempre o chama de “Não Sei Quenzinho”! Ô mulher irritante! Se todos encontram o homem uma vez na vida, como ela consegue encontrá-lo tantas vezes? A verdade é que nem se sabe se é homem. Pode ser uma mulher. Já que ninguém conta como é seu rosto. Cabe a você descobrir olhando-o.

O telefone toca. Você fica tão nervoso que deixa a secretária eletrônica atender. Deixe seu recado após o bip: “Sou eu novamente! Não é “Não Sei Quenzinho”. “Não Sei Quenzinho” mandou-me dizer ao senhor, que sei que está aí, que ele está a caminho, viu? “Não Sei Quenzinho” disse que quer mostrar a coleção de foices preferidas dele! Ele é fazendeiro? Ele me mostrou uma e é muito bonita! Boa tarde. Tchau!” – tu-tu-tu-tu-tu.

Ele está a caminho! Epa! Por essa não esperava. Está agora com inveja de seus sentimentos pulverizados. Mas a inveja foi pulverizada também. Então o que sente? Senta! Descansa! Olha para a sua janela e arranca as grades. Ele vai demorar uma década para chegar. Sabe disso! Então é só abrir a porta da frente e correr! Fugir dele. Mas tem o risco de encontrá-lo de pé no seu carpete prestes a apertar a campainha. Aí o susto será pior que a conformidade do fato. Até porque a década pode durar três segundos, ou até vinte anos. Não faz idéia. Arranque as grades.

Nem tem mais forças para isso. Está velho demais. E é exatamente por isso que “Não Sei Quenzinho” quer te ver! Então tem a opção de deitar na cama e esperá-lo. Examinando móveis duros o suficiente daqueles 10 metros quadrados para quebrar a passagem bloqueada para a sua liberdade. Mas você pularia mesmo do décimo andar? E se ele lhe encontrar no meio da rua? Aí vai conversar com você. Olha. É inevitável. Deita! A campainha acabou de tocar. Nem demorou tanto assim. Seus sentimentos foram pulverizados e agora sua porta foi também. Aquele rosto simpático lhe olha e só o que pensa é “Ó meu Deus, eu sabia que “Não Sei Quenzinho” era assim!”. Ele sorrindo e fala: “Quer conhecer minha foice?”.

Responda que não quer por não ser fazendeiro. Mas “Não Sei Quenzinho” é sagaz e vai te contrariar. Até que pare de respirar você pergunta. E nem o seu pai foi fazendeiro. Até porque é muito difícil encontrar um fazendeiro com um closed do tamanho do seu pequeno apartamento. São só 10 metros quadrados de perguntas a fazer para “Não Sei Quenzinho”. Então começa.